sexta-feira, 24 de abril de 2026

Morte sob sol a pino

 

Morte sob sol a pino


O homem chegava do mercado e, antes de colocar as compras sobre a mesa, ouviu gritos ansiosos da adolescente informando que a mulher estava passando mal no terceiro andar. Embora indeciso se deveria socorrer ou esperar que outra pessoa o fizesse, o homem decidiu ajudar.

Após subir os 30 degraus da escada do prédio vizinho, o homem se depara com a mulher caída ao chão, amparada por dois homens e com a vizinha gritando que alguém tinha que ligar para o SAMU. O homem se pergunta por que ela não havia feito a ligação ainda, mas entende a gravidade e a tensão da situação e sabe que essas circunstâncias aumentam a nossa irracionalidade. O homem liga, se estressa com os pedidos de informações da atendente do SAMU, ouve as orientações do médico: "É preciso fazer massagem, estamos a caminho", e repassa para os dois homens que estavam com a mulher. A mulher sente dificuldade em respirar, estava tendo um infarto. De repente, consegue se sentar e diz que tem problemas no coração, e logo volta a ter uma convulsão.

O homem liga novamente, "gente, venha logo, a moça tá morrendo!". "Estamos a caminho". "Não parem de massagear". Os homens continuam a massagear, o homem também ajuda. Muitos vizinhos vão chegando, uma auxiliar de enfermagem chega para ajudar…Mas o homem vê os últimos respiros da mulher, e percebe que, apesar dos esforços de todos, ela já não estava entre nós.

O homem se levanta e vê os detalhes da situação. A mulher ao pé da escada, não conseguiu chegar em seu apartamento no 4º andar, as sacolas de compras espalhadas pela escada. Um almoço de sábado que jamais aconteceria. "O sol tá muito quente", alguém disse. "Ela veio lá do mercado sob essa lua, aí não deu conta". "Ela mora sozinha, tadinha". "Continua a massagem". "Deus não deixa a moça morrer". O SAMU chegou meia hora depois, para constatar o óbito da mulher.

O homem voltou para casa. A morte sempre provoca reflexões. Mas era a primeira vez que ele via alguém estar vivo em um minuto e, no outro, não mais. O homem se lembrou do texto sagrado que lia na infância: "É melhor ir a um velório do que a uma festa." Pensar sobre a brevidade da vida, sobre a mortalidade, era um exercício que ele desenvolveu ao longo de sua existência. Por isso, sempre fora introspectivo. Gostava do silêncio e das próprias elucubrações.

As reflexões sobre a finitude da vida levou o homem aos poetas, que para ele era uma experiência mística, como seus passos na fé adolescentes. O homem lembrou-se que os poetas o haviam ajudado a ter prazer pela experiência cotidiana, banal e mundana. A perceber que, como dizia o poeta do cancioneiro brasileiro, "o mundo é bão, Sebastião".

A única garantia que o homem tinha era viver a vida que ele havia construído à sua maneira, enquanto a tinha. Estar diante da morte era importante para se dar valor à vida! Era um pensamento tão clichê, mas ele sabia ser uma ideia sábia.

O homem pensa que isso tudo parece um egoísmo atroz. Que as pessoas seguiriam com a vida cotidiana e a mulher morta no 3º andar seria esquecida. Mas talvez, se Fernando Pessoa, seu poeta preferido estivesse certo ao dizer que "a morte é a curva da estrada, morrer é só não ser visto", tudo não passasse de uma mudança de perspectiva. No fim, restam os afetos. As marcas deixadas no caminho. E é por elas e somente por elas, que continuamos existindo.

O homem sai do prédio e olha para o céu. O sol continua brilhante como uma fornalha, indiferente às partidas e às reflexões humanas.

Velar

 

Velar

O homem chegou ao hospital às dezenove horas com a mochila de sempre e o livro. O quarto tinha cinco camas com cinco histórias que preferiam não ter-se cruzado naquele ambiente.

Sua mãe estava na cama mais próxima da janela. Setenta e um anos, dois meses e uma ponte de safena. Ela o viu entrar e fez o gesto de sempre de reconhecimento de sua presença.

O homem sentou. "Como estão suas filhas?", ela perguntou. E depois: "E sua esposa está bem?" Ele respondeu a tudo. Ela ouviu como sempre ouvia, não para seguir um hábito, mas como alguém que guarda o que ouve. Balançou a cabeça afirmativamente e voltou ao silêncio.

A mãe do homem sempre foi assim. Poucas palavras, muita atenção, uma característica de sua personalidade que ele havia herdado. Uma mulher que compreendia tudo sem precisar perguntar tudo.

Nessa noite, depois do jantar que comeu pela metade, ela disse que estava cansada. Não de dor, mas sim da duração. De dois meses olhando para o mesmo teto, esperando uma alta que sempre estava a alguns exames de distância, de ter sido tão furada em busca de veias, que elas pareciam já se esconder.

O homem ficou em silêncio, procurando palavras, como sempre fazia. Depois, disse que ela havia enfrentado muita coisa na vida. Que essa era mais uma luta. Que logo ela estaria em casa. Ela ouviu com aqueles olhos que sempre souberam mais do que diziam. E então disse em um sussurro: "Deus sempre esteve comigo."

O homem concordou. Sem hesitação, sem o desconforto que essa frase já havia causado nele em outros lugares. Ali era sua mãe. Setenta e um anos. Dois meses num quarto de hospital dizendo a coisa que a havia sustentado a vida toda. O homem pensou que havia formas de se manter de pé no mundo. Que cada um encontrava a sua, e que a forma encontrada pela sua mãe tinha funcionado. Era isso que a mantinha de pé. Quem era ele para colocar uma vírgula nisso?

Na cama do canto, a senhora que havia perdido a perna conversava baixinho com a acompanhante. A paciente ao lado vivia anunciando que ia fugir e havia dito isso duas vezes desde que ele chegara. O homem pensou que havia algo de corajoso nela também. Que a revolta era só outro idioma para o desejo de viver.

Por volta das onze, quando o quarto foi ficando mais quieto, ele pegou o livro que prometera ler. Leu a mesma página três vezes. Desistiu. Apoiou o livro no joelho e ficou olhando para sua mãe no escuro.

Pensou nas noites em que ela havia velado o sono dele. Ela nunca fez isso para ser vista. Era da natureza dela não fazer nada para ser vista.

Às três da manhã ela acordou, ajustou o lençol, olhou para ele. "Você não dormiu?"

"Tô aqui", o homem disse.

Ela fechou os olhos. Em poucos minutos dormia de novo.

No escuro, alguém tossiu. Outro acompanhante se mexeu na cadeira. O homem ficou acordado até a noite ir embora sem cerimônia. Lá fora, a cidade foi acordando, como sempre faz.

O homem olhava para sua mãe que dormia e pensava que não havia nada mais importante do que estar ali. Não para fazer nada. Apenas para que ela soubesse, quando acordasse, que alguém havia ficado.

Que Deus havia ficado, segundo ela.

Que ele havia ficado, segundo ele mesmo.

Alberto Caeiro disse que "o amor é uma companhia". Isso era quase um mantra repetido pelo homem. Há muito ele não era dado a certezas religiosas, mas ali sabia que havia uma pessoa no mundo sem a qual ele não seria inteiro. E que estar ali, com o livro no joelho, era a forma como a vida lhe mostrava isso.