Morte sob sol a pino
O homem chegava do mercado e, antes de colocar as compras sobre a mesa, ouviu gritos ansiosos da adolescente informando que a mulher estava passando mal no terceiro andar. Embora indeciso se deveria socorrer ou esperar que outra pessoa o fizesse, o homem decidiu ajudar.
Após subir os 30 degraus da escada do prédio vizinho, o homem se depara com a mulher caída ao chão, amparada por dois homens e com a vizinha gritando que alguém tinha que ligar para o SAMU. O homem se pergunta por que ela não havia feito a ligação ainda, mas entende a gravidade e a tensão da situação e sabe que essas circunstâncias aumentam a nossa irracionalidade. O homem liga, se estressa com os pedidos de informações da atendente do SAMU, ouve as orientações do médico: "É preciso fazer massagem, estamos a caminho", e repassa para os dois homens que estavam com a mulher. A mulher sente dificuldade em respirar, estava tendo um infarto. De repente, consegue se sentar e diz que tem problemas no coração, e logo volta a ter uma convulsão.
O homem liga novamente, "gente, venha logo, a moça tá morrendo!". "Estamos a caminho". "Não parem de massagear". Os homens continuam a massagear, o homem também ajuda. Muitos vizinhos vão chegando, uma auxiliar de enfermagem chega para ajudar…Mas o homem vê os últimos respiros da mulher, e percebe que, apesar dos esforços de todos, ela já não estava entre nós.
O homem se levanta e vê os detalhes da situação. A mulher ao pé da escada, não conseguiu chegar em seu apartamento no 4º andar, as sacolas de compras espalhadas pela escada. Um almoço de sábado que jamais aconteceria. "O sol tá muito quente", alguém disse. "Ela veio lá do mercado sob essa lua, aí não deu conta". "Ela mora sozinha, tadinha". "Continua a massagem". "Deus não deixa a moça morrer". O SAMU chegou meia hora depois, para constatar o óbito da mulher.
O homem voltou para casa. A morte sempre provoca reflexões. Mas era a primeira vez que ele via alguém estar vivo em um minuto e, no outro, não mais. O homem se lembrou do texto sagrado que lia na infância: "É melhor ir a um velório do que a uma festa." Pensar sobre a brevidade da vida, sobre a mortalidade, era um exercício que ele desenvolveu ao longo de sua existência. Por isso, sempre fora introspectivo. Gostava do silêncio e das próprias elucubrações.
As reflexões sobre a finitude da vida levou o homem aos poetas, que para ele era uma experiência mística, como seus passos na fé adolescentes. O homem lembrou-se que os poetas o haviam ajudado a ter prazer pela experiência cotidiana, banal e mundana. A perceber que, como dizia o poeta do cancioneiro brasileiro, "o mundo é bão, Sebastião".
A única garantia que o homem tinha era viver a vida que ele havia construído à sua maneira, enquanto a tinha. Estar diante da morte era importante para se dar valor à vida! Era um pensamento tão clichê, mas ele sabia ser uma ideia sábia.
O homem pensa que isso tudo parece um egoísmo atroz. Que as pessoas seguiriam com a vida cotidiana e a mulher morta no 3º andar seria esquecida. Mas talvez, se Fernando Pessoa, seu poeta preferido estivesse certo ao dizer que "a morte é a curva da estrada, morrer é só não ser visto", tudo não passasse de uma mudança de perspectiva. No fim, restam os afetos. As marcas deixadas no caminho. E é por elas e somente por elas, que continuamos existindo.
O homem sai do prédio e olha para o céu. O sol continua brilhante como uma fornalha, indiferente às partidas e às reflexões humanas.
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