sexta-feira, 24 de abril de 2026

Velar

 

Velar

O homem chegou ao hospital às dezenove horas com a mochila de sempre e o livro. O quarto tinha cinco camas com cinco histórias que preferiam não ter-se cruzado naquele ambiente.

Sua mãe estava na cama mais próxima da janela. Setenta e um anos, dois meses e uma ponte de safena. Ela o viu entrar e fez o gesto de sempre de reconhecimento de sua presença.

O homem sentou. "Como estão suas filhas?", ela perguntou. E depois: "E sua esposa está bem?" Ele respondeu a tudo. Ela ouviu como sempre ouvia, não para seguir um hábito, mas como alguém que guarda o que ouve. Balançou a cabeça afirmativamente e voltou ao silêncio.

A mãe do homem sempre foi assim. Poucas palavras, muita atenção, uma característica de sua personalidade que ele havia herdado. Uma mulher que compreendia tudo sem precisar perguntar tudo.

Nessa noite, depois do jantar que comeu pela metade, ela disse que estava cansada. Não de dor, mas sim da duração. De dois meses olhando para o mesmo teto, esperando uma alta que sempre estava a alguns exames de distância, de ter sido tão furada em busca de veias, que elas pareciam já se esconder.

O homem ficou em silêncio, procurando palavras, como sempre fazia. Depois, disse que ela havia enfrentado muita coisa na vida. Que essa era mais uma luta. Que logo ela estaria em casa. Ela ouviu com aqueles olhos que sempre souberam mais do que diziam. E então disse em um sussurro: "Deus sempre esteve comigo."

O homem concordou. Sem hesitação, sem o desconforto que essa frase já havia causado nele em outros lugares. Ali era sua mãe. Setenta e um anos. Dois meses num quarto de hospital dizendo a coisa que a havia sustentado a vida toda. O homem pensou que havia formas de se manter de pé no mundo. Que cada um encontrava a sua, e que a forma encontrada pela sua mãe tinha funcionado. Era isso que a mantinha de pé. Quem era ele para colocar uma vírgula nisso?

Na cama do canto, a senhora que havia perdido a perna conversava baixinho com a acompanhante. A paciente ao lado vivia anunciando que ia fugir e havia dito isso duas vezes desde que ele chegara. O homem pensou que havia algo de corajoso nela também. Que a revolta era só outro idioma para o desejo de viver.

Por volta das onze, quando o quarto foi ficando mais quieto, ele pegou o livro que prometera ler. Leu a mesma página três vezes. Desistiu. Apoiou o livro no joelho e ficou olhando para sua mãe no escuro.

Pensou nas noites em que ela havia velado o sono dele. Ela nunca fez isso para ser vista. Era da natureza dela não fazer nada para ser vista.

Às três da manhã ela acordou, ajustou o lençol, olhou para ele. "Você não dormiu?"

"Tô aqui", o homem disse.

Ela fechou os olhos. Em poucos minutos dormia de novo.

No escuro, alguém tossiu. Outro acompanhante se mexeu na cadeira. O homem ficou acordado até a noite ir embora sem cerimônia. Lá fora, a cidade foi acordando, como sempre faz.

O homem olhava para sua mãe que dormia e pensava que não havia nada mais importante do que estar ali. Não para fazer nada. Apenas para que ela soubesse, quando acordasse, que alguém havia ficado.

Que Deus havia ficado, segundo ela.

Que ele havia ficado, segundo ele mesmo.

Alberto Caeiro disse que "o amor é uma companhia". Isso era quase um mantra repetido pelo homem. Há muito ele não era dado a certezas religiosas, mas ali sabia que havia uma pessoa no mundo sem a qual ele não seria inteiro. E que estar ali, com o livro no joelho, era a forma como a vida lhe mostrava isso.

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