terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

MONOTONIA


É segundo por segundo
Que vai o tempo medindo
Todas as coisas do mundo
Num só tic-tac, em suma,
Há tanta monotonia
Que até a felicidade
,Como goteira num balde,
Cansa, aborrece, enfastia...
E a própria dor quem diria?
A própria dor acostuma.
E vão se revezando, assim,
Dia e noite, sol e bruma...
E isto afinal não cansa?
Já não há gosto e desgosto
Quando é prevista a mudança.
Ai que vida!
Ainda bem que tudo acaba...
Ai que vida tão comprida...
Se não houvesse a morte, Maria,
'Eu me matava!

_________ Mario Quintana - Preparativos de Viagem

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A MINHA VIDA FOI UM ROMANCE


"A minha vida foi um romance"- diziam, depois de uma pausa - e
Um Suspiro, aquelas velhinhas que apareciam antigamente nos lares a
vender rendas e bordados. Não sei por que os de casa desconversavam. Por sinal que anos depois escrevi, para as consolar postumamente, um poema que começava assim: "Minha vida não foi um romance
Não, a vida nunca é um romance: falta-lhe o senso da composição, o crescendo que leva ao clímax. Tudo acontece tão sem lógica e sem preparo que os seus golpes nos deixam atônitos mas de olhos secos, como se fôssemos heróis, nós que enxugamos furtivamente os olhos no escuro das salas dos cinemas só porque o diretor do dramalhão soube desenrolar devidamente o filme.

_____ Mario Quintana - A Vaca e o hipogrifo

domingo, 26 de janeiro de 2014

Poema de Natal


Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Quero ser Tambor

José Craveirinha
poeta moçambicano





"José Craveirinha na Prisão"
(Desenho inédito de João Craveirinha feito a esferográfica em 1968 em Nachingueia)
.
Quero Ser Tambor*
Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

GRAVATA COLORIDA


Solano Trindade
“Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada…”

NEM SÓ DE POESIA VIVE O POETA

Solano Trindade

“Nem só de poesia vive o poeta
há o “fim do mês”
o agasalho
a farmácia
a pinga
tempo ruim, com chuva
alguém nos olhando
policialescamente
De vez em quando
um pouco de poesia
uma conta atrasada
um cobrador exigente
um trabalho mal pago
uma fome
um discurso à moda Ruy
E às vezes uma mulher fazendo carinho
Hoje a lua não é mais dos poetas
Hoje a lua é dos astronautas.”
 

Se ela faz eu desfaço

Elé Semog

                A treze de maio
                Fica decretado
                Luto oficial na
                Comunidade negra.
                E serão vistos
               Com maus olhos
               Aqueles que comemorarem,
               Festivamente,
               Esse treze inútil. E fica o lembrete:
               Liberdade se toma
               Não se recebe
               Dignidade se adquire
               Não se concede. (Semog, 1979)