quinta-feira, 14 de julho de 2016

Às vezes com alguém que amo

Às vezes com alguém que amo, me encho de fúria, pelo medo de extravasar amor sem retorno;
Mas agora penso não haver amor sem retorno – o pagamento é certo, de um jeito ou de outro;
(Eu amei certa pessoa ardentemente, e meu amor não teve retorno;
No entanto, disso escrevi estas canções.)

Walt Whitman

Canção de mim mesmo

Tenho dito que a alma não é mais que o corpo,
E tenho dito que o corpo não é mais que a alma,
E nada, nem Deus, é maior para alguém do que seu próprio eu,
E quem andar duzentos metros sem solidariedade anda para o próprio funeral vestido em sua mortalha,
E eu ou tu sem um tostão no bolso podemos comprar o escol da terra,
E relancear com um olho ou mostrar um feijão em sua vagem confunde a erudição de todos os tempos,
E não há comércio ou emprego que o jovem siga que não se torne um herói,
E não há objeto tão macio que não faça um eixo para o universo sobre rodas,
E digo a qualquer homem ou mulher,
Que sua alma fique calma e composta ante um milhão de universos.

E digo à humanidade, Não sejas curiosa acerca de Deus,
Pois eu que sou curioso acerca de todos não estou curioso acerca de Deus,
(Nenhum arranjo de termos pode dizer o quanto estou em paz acerca de Deus e da morte.)

Ouço e vejo Deus em todo objeto, no entanto de modo algum entendo Deus,
Nem entendo quem pode haver mais maravilhoso que eu mesmo.

Por que eu devia desejar ver Deus mais que a este dia?
Vejo algo de Deus em cada hora das vinte e quatro, e em cada momento então,
Nos rostos de homens e mulheres vejo Deus, e em meu próprio rosto no vidro,
Encontro cartas de Deus caídas na rua, e cada uma está assinada com o nome de Deus,
E as deixo onde estão, pois seu que onde quer que eu for,
Outras pontualmente virão sempre e sempre.

Walt Whitman, Canção de mim mesmo.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O MITO



Carlos Drummond de Andrade
Sequer conheço fulana,
Vejo fulana tão curto
Fulana jamais me vê,
Mas como amo fulana.

Amarei mesmo fulana?
Ou é ilusão de sexo?
Talvez a linha do busto,
Da perna, talvez o ombro.

Amo fulana tão forte,
Amo fulana tão dor,
Que todo me despedaço
E choro,menino, choro

Mas fulana vai se rindo...
Vejam fulana dançando
No esporte ele está sozinha
No bar, quão acompanhada.

E fulana diz mistérios,
Diz marxismo, rimmel, gás.
Fulana me bombardeia,
No entanto sequer me vê.

E sequer nos compreendemos,
É dama de alta fidúcia,
Tem latifúndios, iates,
Sustenta cinco mil pobres,

Menos eu...que de orgulhoso
Me basto pensando nela
Pensando com unha, plasma,
Fúria, gilete, desânimo.

Amor tão disparatado,
Desbaratado é que é...
Nunca a sentei no meu colo
Nem vi pela fechadura.

Mas sei quanto me custa
Manter esse gelo digno,
Essa indiferença gaia, e não gritar:
vem, fulana!

Como deixar de invadir
Sua casa de mil fechos
E sua veste arrancando
Mostrá-la depois ao povo

Tal como deve ser:
Branca, intata, neutra, rara,
Feita de pedera translúcida,
De ausência e ruivos ornatos.

Mas como será fulana,
Digamos, no seu banheiro?
Só de pensar em seu corpo,
O meu se punge...pois sim.

Porque preciso do corpo
Para mendigar fulana,
Rogar-lhe que pise em mim,
Que me maltrate...assim não.

Mas fulana será gente?
Estará somente em ópera?
Será figura de livros?
Será bicho? saberei?

Não saberei? só pegando,
Pedindo: dona, desculpe,
O seu vestido, esconde algo?
Tem coxas reais? cintura?

Fulana às vêzes existe
Demais: até me apavora.
Vou sozinho pela rua,
Eis que fulana me roça.

Mas não quero nada disso.
Para que chatear fulana?
Pancada na sua nuca
Na minha que vai doer.

E daí não sou criança
Fulana estudo meu rosto
Coitado: de raça branca
Tadinho: tinha gravata

Já morto, me quererá?
Esconjuro, se é necrófila...
Fulana é vida, ama as flores,
As artérias e as debêntures.

Sei que jamais me perdoara
Matar-me para servi-la.
Fulana quer homens fortes
Couraçados, invasores.

Fulana é tão dinâmica
Tem um motor na barriga.
Suas unhas são elétricas,
Seus beijos refrigerados,

Desinfetados, gravados
Em máquina multilite.
Fulana, como é sadia!
Os enfermos somos nós.

Sou eu, o poeta precário
Que fêz de fulana um mito
Nutrindo-me de petrarca,
Ronsard, camões e capim;

Que a sei embebida em leite,
Carne, tomate, ginástica
E lhe colo metafísicas,
Enigmas, causas primeiras.

Mas, se tentasse construir
Outra fulana que não
Essa de burguês sorisso
E de tão burro esplendor?

Mudo-lhe o nome: recorto-lhe
Um traje de transparência;
Já perde a carência humana
E bato-a; de tirar sangue.

E lhe dou todas as faces
De meu sonho que especula;
E abolimos a cidade
Já sem peso e nitidez.

E vadeamos a ciência,
Mar de hipóteses.a lua
Fica sendo nosso esquema
De um território mais justo.

E colocamos os dados
De um mundo sem classe e imposto;
E nesse mundo instalamos
Os nossos irmãos vingados:

E nessa fase gloriosa,
De contradições extintas,
Eu e fulana, abrasados,
Queremos...que mais queremos?

E digo a fulana: amiga,
Afinal nos compreendemos.
Já não sofro, já não brilhas,
Mas somos a mesma coisa

(uma coisa tão diversa
da que pensava que fossemos.)

terça-feira, 21 de junho de 2016

Bendito seja o mesmo sol de outras terras

Bendito seja o mesmo sol de outras terras

Que faz meus irmãos todos os homens

Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,

E nesse puro momento

Todo limpo e sensível

Regressam lacrimosamente

E com um suspiro que mal sentem

Ao Homem verdadeiro e primitivo

Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.

Porque isso é natural — mais natural

Que adorar o ouro e Deus

E a arte e a moral...

Alberto Caeiro

domingo, 19 de junho de 2016

Por causa deles...

- Se houvesse alguma possibilidade de trocar esta vida mesmo que fosse pela vida mais vulgar e miserável que existe, mas sem o perigo e sem o serviço militar, eu não hesitaria nem um minuto.

- Por que o senhor não se transfere para a Rússia? - perguntei.(...)

- É que me sinto ainda mais incapaz de voltar para a Rússia do que quando vim para cá. Outra tradição que existe na Rússia (...) é que basta vir ao Cáucaso para acumular condecorações. E todos esperam e exigem isso de nós; estou há dois anos aqui (...) e não ganhei nada. (...) na Rússia, como vou me apresentar aos olhos de meu asterote, do comerciante Koguelnikov, a quem vendo trigo,  aos olhos de minha tia moscovita e de todos aqueles senhores, sem nenhuma condecoração depois de anos no Cáucaso? É verdade que não quero ter relação com esses senhores e que , é bem possível, eles também estejam muito pouco interessados em mim; mas o ser humano é feito de tal modo que eu não quero ter relação com eles, mas mesmo assim, por causa deles, destruo meus melhores anos, toda a felicidade de minha vida e vou arruinar todo o meu futuro.

Liev Tolstoi. " A derrubada da floresta". Contos completos. Editora Cosacnaify.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Epígrafe


Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.

Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugiu como um furacão,

Turbou, partiu, abateu
Queimou sem razão nem dó -
Ah, que dor!
Magoado e só,
- Só - meu coração ardeu:

Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.

- Esta pouca cinza fria.

Manuel Bandeira
(1886-1968)

terça-feira, 31 de maio de 2016

O poder político

"O que eu quero dizer é o seguinte: é comum, pelo menos na sociedade européia, considerar que o poder está localizado nas mãos do governo e que ele é exercido por meio de certo numero de instituições especificas, como a administração pública, a policia, o exercito e o aparelho de Estado. Sabe-se que todas essas instituições são feitas para elaborar e transmitir certo numero de decisões em nome da nação ou do
Estado, para fazer que elas sejam aplicadas e para punir aqueles que não obedecem, Creio, porém, que o
poder político também é exercido por intermédio de certo número de instituições que, aparentemente, não
têm nada em comum com o poder político, como se fossem independentes dele, o que não e verdade.

Isso é sabido no que diz respeito à família, e sabemos que a universidade e, de maneira geral, todos os sistemas de
ensino, que aparentemente apenas difundem o conhecimento, são feitos para manter determinada classe social no poder e para excluir os instrumentos de poder de outra classe social. Instituições ligadas ao conhecimento, à previdência e a assistência, como medicina, também ajudam a sustentar o poder político. Isso
também é evidente, chegando a ser escandaloso, em certos casos relacionados a Psiquiatria.

Parece-me que a verdadeira tarefa política, em uma sociedade como a nossa, é criticar o funcionamento das instituições, que dão a impressão de ser neutras e independentes; criticá-las e atacá-las de tal maneira que a violência política,que sempre foi exercida de maneira obscura, por meio delas seja desmascarada, para que se possa combatê-las.

Essa critica e essa luta parece fundamental por diferentes razões: primeiramente, porque o poder político
tem raízes mais profundas do que se imagina; existem núcleos e pontos de apoio invisíveis e pouco
conhecidos; sua verdadeira resistência e solidez talvez se localizem onde ninguém espera encontrá-las.
Provavelmente não basta dizer que por trás dos governos e do aparelho de Estado existe uma classe dominante; é preciso revelar o local da ação, os espaços e as formas como essa dominação é exercida. Além disso, como essa dominação não é simplesmente a expressão em termos políticos de exploração econômica. Ela é seu instrumento e, em larga medida, a condição que a torna possível, a eliminação de uma é alcançada
por meio da compreensão exaustiva da outra. Bem se não conseguimos identificar esses pontos de apoio do
poder de classe, corremos o risco de permitir que eles continuem existindo e observar esse poder de classe se
reconstitui mesmo após um aparente processo revolucionário”.

Michael Foucault , in Natureza Humana,  Justiça  vs. Poder. Michael Foucault e Noam Chomsky. (pag,50-52).