segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Quem comanda a narração não e a voz: é o ouvido

"Kublai pergunta para Marco:

-Quando você retornar ao Poente, repetirá para a sua gente as mesmas histórias que conta para mim?
- Eu falo, falo- diz Marco , mas quem me ouve retém somente as palavras que deseja. Uma é a descrição do mundo a qual você empresta a sua bondosa atenção, outra é a que correrá os campanários de descarregadores e gondoleiros às margens do canal diante da minha casa no dia do meu retorno, outra ainda a que poderia ditar em idade avançada se fosse aprisionado por piratas genoveses e colocado aos ferros na mesma cela de um escriba de romances de aventuras. Quem comanda a narração não e a voz: é o ouvido."

Ítalo Calvino. As cidades invisíveis.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Onde está Deus

Onde está Deus, mesmo que não
exista? Quero rezar e chorar,
arrepender-me de crimes que não
cometi, gozar ser perdoado como uma
carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um
regaço enorme, sem forma, espaçoso
como uma noite de Verão, e contudo
próximo, quente, feminino, ao pé de
uma lareira qualquer... Poder ali
chorar coisas impensáveis, falências
que nem sei quais são, ternuras de
coisas inexistentes, e grandes dúvidas
arrepiadas de não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama
velha outra vez, e um leito pequeno
onde acabe por dormir, entre contos
que embalam, mal ouvidos, com uma
atenção que se torna morna, os perigos
que penetravam em jovens cabelos
louros como o trigo... E tudo isto muito
grande, muito eterno, definitivo para
sempre, da estatura única de Deus, lá
no fundo triste e sonolento da
realidade última das coisas...
Um colo ou um berço ou um
braço quente em torno ao meu
pescoço... Uma voz que canta baixo e
parece querer fazer-me chorar... O
ruído de lume na lareira... Um calor no
Inverno... Um extravio morno da
minha consciência... E depois sem som,
um sonho calmo num espaço enorme,
como a lua rodando entre estrelas...
Quando ponho de parte os meus
artifícios e arrumo a um canto, com um
cuidado cheio de carinho — com
vontade de lhes dar beijos — os meus
brinquedos, as palavras, as imagens, as
frases — fico tão pequeno e inofensivo,
tão só num quarto tão grande e tão
triste, tão profundamente triste! ...
Afinal eu quem sou, quando não
brinco? Um pobre órfão abandonado
nas ruas das sensações, tiritando de
frio às esquinas da Realidade, tendo
que dormir nos degraus da Tristeza e
comer o pão dado da Fantasia. De um
pai sei o nome; disseram -me que se
chamava Deus, mas o nome não me dá
ideia de nada. Às vezes, na noite,
quando me sinto só, chamo por ele e
choro, e faço-me uma ideia dele a
quem possa amar... Mas depois penso
que o não conheço, que talvez ele não
seja assim, que talvez não seja nunca
esse o pai da minha alma...
Quando acabará isto tudo, estas
ruas onde arrasto a minha miséria, e
estes degraus onde encolho o meu frio
e sinto as mãos da noite por entre os
meus farrapos? Se um dia Deus me
viesse buscar e me levasse para sua
casa e me desse calor e afeição... Às
vezes penso isto e choro com alegria a
pensar que o posso pensar... Mas o
vento arrasta-se pela rua fora e as
folhas caem no passeio... Ergo os olhos
e vejo as estrelas que não têm sentido
nenhum... E de tudo isto fico apenas
eu, uma pobre criança abandonada,
que nenhum Amor quis para seu filho
adoptivo, nem nenhuma Amizade para
seu companheiro de brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão
cansado no meu abandono. Vai buscar,
O Vento, a minha Mãe. Leva-me na
Noite para a casa que não conheci...
Torna a dar-me ó Silêncio imenso, a
minha ama e o meu berço e a minha
canção com que dormia...
s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo
Soares.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Sem pedras o arco não existe

Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.
- Mas qual é a pedra que sustenta a ponte?- pergunta
Kublai Khan.
- A ponte não é sustentada por esta ou aquela
pedra - responde Marco -, mas pela curva do arco
que estas formam.
Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo.
Depois acrescenta:
- Por que falar das pedras? Só o arco me interessa.
Polo responde:
- Sem pedras o arco não existe.

As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

As cidades invisíveis. Vida on e offline?

Os antigos construiram Valdrada à beira de um lago com casas repletas de varandas sobrepostas e com ruas suspensas sobre a água desembocando em parapeitos balaustrados. Deste modo, o viajante ao chegar depara-se com duas cidades: uma perpendicular sobre o lago e a outra refletida de cabeça para baixo. Nada existe e nada acontece na primeira Valdrada sem que se repita na segunda, porque a cidade foi construida de tal modo que cada um de seus pontos fosse refletido por seu espelho, e a Valdrada na água contém não somente todas as acanaladuras e relevos das fachadas que se elevam sobre o lago mas também o interior das salas com os tetos e os pavimentos, a perspectiva dos corredores, os espelhos dos armários.

Os habitantes de Valdrada sabem que todos os seus atos são simultaneamente aquele ato e a sua imagem especular, que possui a especial dignidade das imagens, e essa consciência impede-os de abandonar-se ao acaso e ao esquecimento mesmo que por um único instante. Quando os amantes com os corpos nus rolam pele contra pele à procura da posição mais prazerosa ou quando os assassinos enfiam a faca nas veias escuras do pescoço e quanto mais a lâmina desliza entre os tendões mais o sangue escorre, o que importa não é tanto o acasalamento ou o degolamento mas o acasalamento e o degolamento de suas imagens límpidas e frias no espelho.

As vezes o espelho aumenta o valor das coisas, às vezes anula. Nem tudo o que parece valer acima do espelho resiste a si próprio refletido no espelho. As duas cidades gêmeas não são iguais, porque nada do que acontece em Valdrada é simétrico para cada face ou gesto, há uma face ou gesto correspondente invertido ponto por ponto no espelho. As duas Valdradas vivem uma para a outra, olhando-se nos olhos continuamente, mas sem se amar.

Ítalo Calvino. As cidades invisíveis.

As cidades invisíveis

Em Cloé, cidade grande, as pessoas que passam pelas ruas não se reconhecem. Quando se veem, imaginam mil coisas a respeito umas das outras, os encontros que poderiam ocorrer entre elas, as conversas, as surpresas, as caricias, as mordidas. Mas ninguém se cumprimenta, os olhares se cruzam por um segundo e depois se desviam, procuram outros olhares, não se fixam.

Passa uma moça balançando uma sombrinha apoiada no ombro, e um pouco das ancas, também. Passa uma mulher vestida de preto que demonstra toda a sua idade, com os olhos inquietos debaixo do véu e os lábios tremulantes. Passa um gigante tatuado; um homem jovem com os cabelos brancos uma anã; duas gêmeas vestidas de coral. Corre alguma coisa entre eles, uma troca de olhares como se fossem linhas que ligam uma figura à outra e desenham flechas, estrelas, triângulos, até esgotar num instante todas as combinações possiveis, e outras personagens entram em cena: um cego com um guepardo na coleira, uma cortesa com um leque de penas de avestruz, um efebo, uma mulher-canhão. Assim, entre aqueles que por acaso procuram abrigo da chuva sob o pórtico, ou aglomeram-se sob uma tenda do bazar, ou param para ouvir a banda na praça, consumam-se encontros, seduções, abraços, orgias sem que se troque uma palavra, sem que se toque um dedo, quase sem levantar os olhos.

Existe uma contínua vibração luxuriosa em Cloé a mais casta das cidades. Se os homens  e as mulheres começassem a viver os seus sonhos efêmeros, todos os fantasmas se tornariam reais e começaria uma história de perseguições, de ficções, de desentendimentos, de choques, de opressões, e o carrossel das fantasias teria fim.

Ítalo Calvino. As cidades invisíveis.

sábado, 22 de dezembro de 2018

A  POESIA É UMA ARMA CARREGADA DE FUTURO


Quando  nada se espera de pessoalmente exaltante,mas se palpita e se continua para da consciência,ferozmente existindo, cegamente afirmando,como um pulso que lateja nas trevas,
quando se olham de frente
os 
claros olhos vertiginosos da morte,
dizem-se as 
verdades:
as bárbaras, 
terríveis, amorosas crueldades.

Dizem-se os 
poemas
que dilatam os pulmões de quantos, asfixiados,
pedem 
ser, pedem ritmo,
pedem 
lei para o que sentem excessivo.
Com a velocidade do instinto,com o raio do prodígio,como mágica evidência, converte-se o real
no 
idêntico a si mesmo.
poesia para o pobrepoesia necessária
como o pão de cada dia,como o ar que exigimos treze vezes por minuto,para ser e enquanto somos dizer um sim que glorifica.
Porque vivemos de vez em quando,porque mal nos deixamdizer que somos quem somos,nossos cantos não podem sem pecado ser um ornamento.
Estamos a 
tocar o fundo.

Maldigo a 
poesia concebida como um luxo
cultural 
pelos neutrais
que lavando as mãos, se desinteressam e evadem.
Maldigo a 
poesia de quem não toma partido até manchar-se.

Faço 
minhas as faltas. Sinto em mim quantos sofrem
canto ao respirar.Cantocanto, e a cantar para além de minhas mágoas
pessoais, fico maior.

Quisera dar-vos 
vidaprovocar novos actos,
e calculo 
por isso com técnicaque venço.
Sinto-me 
um engenheiro do verso e um operário
que com outros trabalha Espanha nos seus aços.
Assim é a minha poesia: poesia-ferramenta
e ao 
mesmo tempo pulsação do unânime e cego.Assim é, arma carregada de futuro expansivo
com que aponto ao peito.
Não é uma poesia gota a gota pensada.Nem um belo produtoNem um fruto perfeito.
É 
algo como o ar que todos respiramos
e é o 
canto que difunde o que dentro levamos.
São palavras que todos repetimos sentindocomo nossas, e voam. São mais que oque elas dizem.
São o mais necessário: o que possui um nome.São no céu, e, na terrasão actos. 

Gabriel Celaya

domingo, 4 de novembro de 2018

Minha mãe


Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.
Vinicius de Moares