sábado, 9 de março de 2019

Sobre livros e a magia da leitura.

A biblioteca compreendia uma maioria de romances, mas muitos eram proibidos aos menores de 15 anos e guardados à parte. E o método puramente intuitivo dos dois meninos não era na verdade uma escolha entre os que sobravam. Mas o acaso não é a pior coisa em matéria de cultura, e, devorando aqui e ali, os dois glutões engoliam o melhor ao mesmo tempo que o pior, sem aliás se preocuparem em guardar nada, e não guardando realmente quase nada, a não ser uma estranha e poderosa emoção que, através das semanas, dos meses e dos anos, fazia nascer e crescer neles todo um universo de imagens e lembranças redutíveis à realidade em que viviam no dia a dia, mas certamente não menos presentes para esses meninos ardentes que viviam seus sonhos tão violentamente quanto suas vidas. O que esses livros continham, no fundo, pouco contava. O que importava era aquilo que sentiam primeiro entrar  ao na biblioteca, onde não viam as paredes de livros pretos, mas um espaço e  horizontes múltiplos que, assim que transpunham a porta, os tirava da vida restrita do bairro. Depois vinha o momento em que, munidoscada um com os dois livros a que tinham direito, apertando-os com o cotovelo contra o corpo, saíam pela avenida àquela hora já escuraesmagando com os pés as bolotas dos grandes plátanos e imaginando as delicias que iriam saborear com seus livros, comparando-as já com as da semana anterior, até que, chegando à rua principal, começassem a abri-los sob a luz precária do primeiro lampião para recolher uma frase (por ex. "ele era de um vigor pouco comum") que iria reforçar neles a alegre e ávida esperança.

Albert Camus. O primeiro homem

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A experiência

Ela dizia sim, mas talvez fosse não, era preciso voltar no tempo através de uma memória que mergulhara em trevas, nada era certo. A memória dos pobres já é por natureza menos alimentada que a dos ricos, tem menos pontos de referência no espaço, considerando que eles raramente saem do lugar onde vivem, e tem também menos
pontos de referência no tempo de uma vida uniforme e sem cor. E claro que existe a memória do coração, que dizem ser a mais segura, mas o coração se desgasta com as dificuldades e o trabalho, esquece mais depressa sob  o peso do cansaço. Só os ricos podem reencontrar o tempo perdido. Para os pobres, o tempo marca apenas os vagos vestigios do caminho da morte. E além disso, para poder suportar, nao convém se lembrar muito, é preciso ficar muito perto de cada dia, de cada hora, como fazia sua mãe.

Albert Camus. O primeiro homem

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Era silencioso o amor

Era silencioso o amor. Podia-se adivinhá-lo no cuida do da mãe enxaguando as roupas nas águas de anil. Era silencioso, mas via-se o amor entre seus dedos cortando a couve, desfolhando repolhos, cristalizando figos, bordando flores de canela sobre o arroz-doce nas tigelas.

Lia-se o amor no corpo forte do pai, em seu prazer pelo trabalho, em sua mansidão para com os longos domingos. Era silencioso, mas escutava-se o amor murmurando -
noite adentro - no quarto do casal. A casa, sem forro, deixava vazar esse murmurio com o aroma de fumo e canela, que invadia lençóis e dúvidas, para depois filtrar-se por entre telhas

Experimentava-se o amor quando, assentados ao calor da cozinha, pai e mãe falavam de distâncias, dos avós, das origens, dos namoros, dos casamentos.

E, quando o sono chegava, para cada menino em cada tempo, era o amor que carregava cada filho nos braços para a cama, ajeitando o cobertor sob o queixo.

Bartolomeu Campos de Queirós. Indez

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Vida e sonhos

"Havia, na minha rua, uma casa pequena e branca. Durante dias, lá não vivia ninguém. Mas, se a lua era cheia, a janela se abria como um livro. Um homem, com rosto de anjo, vestido de luar, debruçava na jane
la e pensava, em sossego, sobre a cidade. Mais calado que o silêncio, o homem olhava e mais nos olhava. Todos da cidade tinham cuidado para não quebrar o seu silêncio. Ninguém soprava uma palavra.

Cochichavam que ele esperava os habitantes
dormir. Na noite alta, ele saía para visitar o sono de cada um. Entrava mansinho, mais leve que o gato, doce como o sereno, suave como o perfume, e virava um sonho diferente para cada uma das pessoas. Naquela noite, todos dormiriam com um breve sorriso na boca.

O prefeito sonhava em ser governador; o padre, em ser bispo; a professora, em ser diretora; o deputado, em ser senador; o soldado, em ser tenente; a solteira, em ser casada; o pedreiro, em ser engenheiro; a
criança, em ser grande; o sem-teto, em ter casa. Todos queriam outra coisa. E para tudo precisava tempo. No dia seguinte, todos acordam como eram antes e com vontade de continuar sonhando.

Mas na cidade vivia um menino. O pai era forte. A mãe, doce. Sua casa ficava perto de um riacho cercado de pedras. Eram três irmãos. O menino tinhaainda um cachorro e uma bola azul.

Quando o senhor dos sonhos entrava em seu sono, o menino sonhava sempre com o que já possuía: um pai, uma mãe, dois irmãos, um cachorro e uma bola, um riacho com pedras cercando a casa. O menino não precisava de tempo, sua vida era um sonho.

O senhor do luar voltava para a casa antiga e fechava o livro da janela. Todo desconheciam quando seria sua próxima visita para sonhar de novo. Mas o homem sabia que naquela cidade morava um menino inteiramente feliz, por saber que viver é um sonho."

Bartolomeu Campos de Queirós. Tempo de vôo.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Para isso fomos feitos

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes