domingo, 30 de agosto de 2020

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações no encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

 
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

 

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas de dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

 

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

 

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Se jogar no vazio

yves klein salto al vacío 1960

"Há algo do desejo de voar na foto de Klein. De braços abertos, de peito aberto, olhando para o céu como quem acredita ser capaz de voar. Mas ouve-se desde sempre que voar é impossível. Desde crianças tentamos e desde crianças descobrimos nossa impotencia. Mesmo que nem todo mundo saiba que talvez a unica função real da arte seja exatamente esta, nos fazer passar da impotència ao impossivel. Nos lembrar que o impossível é apenas o regime de existencia do que não poderia se apresentar no interior da situação em que estamos, embora não deixe de produzir efeitos como qualquer outra coisa existente. O impossivel é o lugar para onde nào cansamos de andar, mais de uma vez, quando queremos mudar de situação. Tudo o que realmente amamos foi um dia impossivel. 
Mas, como diz o inimigo não ha almoço de graça. Quem toca o impossivel paga um preco. Há o chao à nossa espera, o acidente, a quebra certa e segura como a dureza do asfalto. Dá até para imaginar o riso sardonico de Klein depois de ouvir tal objeção Como quem diz: mas é para isto que a arte existe em sua força politica para deixar os corpos se quebrarem. Se amássemos tanto nossos corpos como são, com suas afecções definidas e sua integridade inviolável, com sua saude a ser preservada compulsivamente, não haveria arte. Há momentos em que os corpos precisam se quebrar, se decompor, ser despossuidos para que novos circuitos de afetos apareçam. Fixados na integridade de nosso corpo próprio, não deixamos o próprio se quebrar, se desamparar de sua forma atual para que seja às vezes recomposto de maneira inesperada.

Saltar no vazio era a maneira tão própria à consciência histórico-politio singular de Yves Klein, de se colocar no limiar de um tempo bloqueado pela repetição compulsiva de uma sensibilidade atrofiada. Se a atrofia atingiu nossa linguagem de forma tão completa, a ponto de ela nos impedir de imaginar figuras alternativas, se fizemos a experiência, tão bem descrita por Nietzsche, de nunca nos desvencilharmos de Deus enquanto acreditarmos na gramática, então é hora de ir em direção ao fundamento e bater contra o chão (se falássemos alemão, eu faria um conhecido trocadilho dialético sobre ir ao fundamento). Era um pouco o que Schoenberg dizia a Cage: "Voce compõe como quem bate a cabeça contra a parede. Para o que a única resposta possivel era: "Então melhor bater a cabeça até a parede quebrar"

Vladimir Safatle. O circuito dos afetos .

quinta-feira, 14 de maio de 2020

o inferno

- É Tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito.

E Polo:

- O  inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebe-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem continuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não  é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

Ítalo Calvino. As cidades invisíveis.

terça-feira, 12 de maio de 2020

VISITAÇÃO

Que a dor venha, quando quiser, como quiser,
por quem a queira trazer: amigo, inimigo, indiferente.
A dor sempre foi bem recebida nesta casa,
sem gritos nem hostilidade.

Que o coração não seja como um frio sepulcro,
mas ardente e sensível e cheio de densas lágrimas. 
Que, no entanto, o lábio não trema nem se entreabra,
e os olhos continuem serenos, translúcidos, sem qualquer esquecimento.

Que a mão permaneça tranqüila, ou apenas se mova
para aquiescer em silêncio - pois à dor nem se precisa falar.

Que a dor venha, e seja como as cartas e os pássaros e as flores
que, às vezes, também pousam perto de nós o seu mistério.

Que seja de qualquer espécie a dor:
da mais simples, que é a vida,
à mais sem remédio, que é a morte
- cedo ou tarde,
de dia, de noite, 
no tumulto ou na solidão.

Isto não são palavras de página efêmera:
isto é uma velha inscrição na alma
- onde nada se apaga nem deforma.

Cecília Meireles

terça-feira, 28 de abril de 2020

despedida

"Eu acho que nunca cheguei a dizer a ninguém, só mesmo à Romina, mas na minha cabeça eu sempre escondia este pensamento: as despedidas têm cheiro. E não é cheiro bom tipo cha-de-caxinde, ou as plantas a darem ares duma primeira respiração na frescura da manhã, entre silêncios e cachimbos molhados. Não. Despedida tem cheiro de amizade cinzenta. Nem sei bem o que isso é, nem quero saber. Não gosto mesmo de despedidas.(...)


O camarada professor Angel continuava a falar e, sem querer, dizia coisas que nos emocionavam muito. Nas despedidas acontece isso: a ternura toca a alegria, a alegria traz uma saudade quase triste, a saudade semeia lágrimas, e nós, as crianças, não sabemos arrumar essas coisas dentro do nosso coração."



Conto "um pingo de chuva". Os da minha rua.  ondjaki. 

segunda-feira, 13 de abril de 2020

A peste e a desigualdade

"Havia, porém, outros motivos de inquietação, em consequência das dificuldades de abastecimento que cresciam com o tempo. A especulação interviera e oferecia, a preços fabulosos, os géneros de primeira necessidade que faltavam no mercado habitual. As famílias pobres viam-se, assim, numa situação muito difícil, enquanto às ricas não faltava praticamente nada.Enquanto a peste, pela imparcialidade eficaz com que exercia seu ministério, deveria ter reforçado a igualdade entre os nossos concidadãos pelo jogo normal dos egoísmos, ao contrário, tornava mais acentuado no coração dos homens o sentimento da injustiça."

Camus. A peste

Flagelos e vítimas

"Digo apenas que há neste mundo flagelos e vítimas e que é necessário, tanto quanto possivel, recusarmo-nos a estar com o flagelo. Isto parece a você talvez um pouco simples. Não sei se é simples, mas sei que é verdadeiro. (...)Foi assim que decidi pôr-me do lado das vítimas, em todas as ocasiões, para limitar os prejuízos. No meio delas, posso ao menos procurar saber como se chega à terceira categoria, isto é, à paz.


Ao terminar, Tarrou balançava a perna e batia levemente como pé no terraço. Depois de um silêncio, o médico soergueu-se um pouco e perguntou-lhe se tinha alguma ideia sobre o caminho que era preciso seguir para se chegar à paz.


-Tenho. A simpatia.

- Em resumo - disse Tarrou com simplicidade, o que me interessa é saber como alguém pode tornar-se um santo.


- Mas você não acredita em Deus...


- Justamente. Poder ser um santo sem Deus é o único problema concreto que tenho hoje.(...)


- Talvez - respondeu o médico -, mas, sabe, sinto-me mais solidário com os vencidos do que com os santos. Creio que não sinto atração pelo heroísmo e pela santidade. O que me interessa é ser um homem.


- Sim, buscamos a mesma coisa, mas eu sou menos ambicioso."


Albert Camus, in A peste.