sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Logo vou te encontrar

Logo vou te encontrar.

Mas a dúvida vai além de saber com que roupa eu vou.

Qual o sorriso que escolho?

Preciso escolher que palavras vão estar na minha boca além da cor do batom?

Qual a cor da minha voz quando eu for dizer teu nome?

A única coisa que já me escolheu

Foi o brilho dos meus olhos.

Esse já está em mim..

Mas o que mais me admira é escolher com qual coração eu vou.

Posso levar meu coração partido e te pedir: conserta.

Posso levar meu coração cheio de abismos e te pedir: salva-me.

Pensei em levar meu coração criança e te pedir: ensina-me.

Mas trago meu coração vazio e te convido.. entra.

Ana Claudia Quintana Arantes

quinta-feira, 20 de julho de 2023

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
      Teu exagera ou exclui. 
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
      No mínimo que fazes. 
Assim em cada lago a lua toda 
      Brilha, porque alta vive.

14 - 2 - 1933 

 

REIS, Ricardo, Poesia

Estás só. Ninguém o sabe

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

6-4-1933
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Auto retrato

No retrato que me faço
– traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão…

e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança

Mário Quintana 

sexta-feira, 3 de março de 2023

Quero ser uma obra de arte

"Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares
frescos e das luzes francas - onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza."

Bernardo Soares. O livro do desassossego.

O amor passou

Quanto a mim... 
O amor passou. 
Peço que não faça como a gente vulgar, 
Que não me volte a cara quando passe por si, 
Nem tenha de mim uma recordação 
Em que entre o rancor. 
Fiquemos, um perante o outro, 
Como dois conhecidos desde a infância, 
Que se amaram um pouco quando meninos, 
E, embora na vida adulta 
Sigam outras afeições, conservam sempre, 
Num escaninho da alma, 
A memória profunda do seu amor antigo e inútil.

Álvaro de Campos


domingo, 26 de fevereiro de 2023

Não: devagar

Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar...

Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...

Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
TaIvez a impressão dos momentos seja muito próxima...

Talvez isso tudo...

Álvaro de Campos